Técnica Vocal II

TÉCNICAS VOCAIS

Apesar da diversidade biológica que se expressa em teorias e técnicas contraditórias da voz cantada, distinguimos três grandes categorias de canto no mundo:

  1. Canto gutural-laríngeo;
  2. Canto nasal;
  3. Canto palatal;

As características das técnicas vocais estão resumidas a seguir:

VOZ ESPANHOLA

A voz espanhola parece uma emissão muito natural. É uma voz orgânica e espontânea. Apresenta um timbre quente. A força e o volume dependem da respiração diafragmática apoiada na parte alta da cavidade torácica, produzindo por esta razão agudos pouco claros, pouco redondos e gritados. Esta técnica evita a cobertura de voz. A boca amplia sua abertura à medida que se dirige aos agudos. A laringe encontra-se geralmente elevada, movendo-se de acordo com o registro. O golpe de glote tem lugar importante.

VOZ FRANCESA

A voz francesa procura projetar-se através da compreensão verbal e dicção bem cuidada. A dinâmica geral é pouco animada, pois o francês é uma língua ligeira. A direção é horizontal. A voz é mais labial que bucal. O “e” mudo do francês e os sons nasais oferecem grande dificuldade de produção.
A respiração dominante caracteriza-se por um fechamento muito rápido das costelas, o que determina uma carência de sustentação e produz perda de sonoridade. A respiração curta provoca uma fadiga generalizada e pulmonar.

VOZ ITALIANA

A Itália é o país do “bel canto”. Depois do século XX, surgem duas escolas de canto importantes:

  1. Escola de Milão (emissão clara e projetada: ocupa-se dos sopranos e tenores);
  2.  Escola de Nápoles  (emissão sombra cupa); ocupa-se dos contraltos, vozes graves e algumas vozes de tenores.

A escola de canto do norte é a que tem obtido grande consenso na Europa por sua clareza e projeção.
Q bel canto marca mais um repertório do que um estilo de canto. A princípio a escola italiana buscava força e volume, através da sustentação da respiração para sonorizar as frases longas. A prioridade está no mecanismo expiratório e não na agilidade glótica. No século XIX, o canto italiano desenvolve a cobertura vocal que permite ir de um registro a outro sem modificação no timbre da voz. Antes disso, o que se conhece “passagem da voz” era cantada obrigatoriamente em falsete.
A voz italiana é projetada e extrovertida por excelência. A dinâmica geral é simples e direta, de orientação oblíqua: ligeiramente para cima e dependente da intensidade e dos registros. Apresenta todo o espectro de harmônicos, do grave ao agudo e sua cor é clara. A base do canto italiano é a respiração, e o apoio situado na zona do epigástrio. A laringe sobe e abaixa de acordo com a mudança dos registros. O ataque da nota deve vir pelo apoio de sustentação do sopro e a garganta deve e par aberta. A voz palatal exige uma abertura mediana da boca e dos lábios, acentuada apenas nos agudos.

VOZ ALEMÃ

A direção a voz alemã é vertical. Os graves dominam em relação aos agudos. A cor da voz é bastante faríngea e às vezes velada, pouco vibrato. Como resultado, a sensação auditiva é de voz de tubo — voz na parte posterior da boca, palato mole. A posição laríngea é baixa, com aumento da faringe e elevação do véu palatino. A respiração é baixa: o ar é apoiado verticalmente sobre os músculos abdominais. É de base semelhante ao canto napolitano do ponto de vista fisiológico. Talvez a grande quantidade de consoantes posteriores na língua favoreça a ressonância na região posterior da boca.

VOZ DA EUROPA CENTRAL

As vozes da Europa central são as vozes checas, búlgaras, romenas, húngaras, polonesas, etc. São vozes de característica profunda, entubadas e com direção vertical. Apóiam-se na laringe com grande vibração no peito. Os harmônicos graves são dominantes. Estes países, especialmente Rússia e Bulgária, desenvolvem vozes de baixos. A coluna de ar é profunda, com respiração abdominal que se apóia “quase no solo”. A posição laríngea é baixa, boca é muito aberta tanto nos graves quanto nos agudos. A voz romena tem um som semelhante ao da voz espanhola e da voz italiana. A voz austríaca é quase sem vibrato.

VOZ INGLESA

Não existe uma escola de canto particular da língua inglesa. Desta forma a chamada voz inglesa utiliza as principais técnicas vocais européias, sobretudo as italianas e alemãs adaptadas às língua anglo-saxônica. Os ingleses são originais na voz do contratenor e preferem a escola de Milão à napolitana. Apresenta característica,suave, com emissão que oscila entre a obliqüidade italiana e a verticalidade alemã. A cor e o timbre são de uma emissão ligeira e delicada com sons claros e velados dando, por vezes, a sensação de uma voz entubada. A laringe é posicionada ligeiramente baixa e em bocejo, procurando atingir uma semicobertura e apresentando uma certa propensão ao vibrato. Tem as características típicas italianas em relação à forma de apoio do ar. A expiração apresenta retenção mediana, com apoio no peito, sem lançar um canto vigoroso. A pronúncia é cheia de vogais compensadas (nem abertas nem fechadas) e se presta a uma técnica vocal colorida por palavras e silabas que se compreendem muito bem. Esta técnica não é de fácil aplicação em todas as línguas.

VOZ NÓRDICA

A voz sueca e a norueguesa apresentam características de clareza e limpidez. São vozes que se projetam: a emissão é coberta e forte. Não é uma voz muito fechada. A direção é oblíqua e vertical, de acordo com o som que se deseja obter. Como na frança, utilizam a ressonância atrás do nariz. A respiração tem apoio abdominal na região epigástrica em todas as intensidades. A posição laríngea é ligeiramente baixa nos graves e se estabiliza numa região média. Nas regiões extremas do agudo, a projeção se dirige para a frente da boca, atingindo o som italiano da escola de Milão. Nas regiões agudas intermediárias utiliza a projeção no palato mole, como os alemães.

VOZ IN MASCHERA

A voz na máscara é uma técnica normalmente usada na França, Alemanha, Áustria e países nórdicos. Essa técnica produz nasalização da emissão, com projeção até a parte posterior do nariz, fixada entre os olhos. O conceito de voz de más:ara suscita confusão, uma vez que envolve duas concepções: uma relacionada à ressonância nasal francesa e outra à palatal do canto italiano. O termo voce in maschera é urna imagem relacionada com a não-oclusão da nasofaringe, propiciando o livre funcionamento do músculo constritor Faríngeo, evitando problemas no fechamento glótico e na produção dos agudos.

VOZ MOIRÈE

Esta é uma voz rica em possibilidades e que põe em prática todos os mecanismos segundo o tipo de música (ópera, oratório, melódica, canção etc.). Utiliza-se uma técnica vocal fisiológica com suas adaptações particulares à língua, tipo de música, interpretação e características próprias do indivíduo.

VOZ NO CANTO POPULAR

O canto popular não segue os mesmos princípios do canto clássico. É uma voz espontânea, natural e que dá características do canto da região. É um meio de expressão que não chega a intelectualizar ou fazer consciente uma quantidade de mecanismos que devem funcionar na música culta profissional.

CRIANÇA CANTORA

Os coros infantis, tanto masculinos quanto femininos: compreendem sopranos e contraltos. Para evitar os transtornos vocais, o diretor do coro deve realizar uma boa classificação das vozes, sendo às vezes necessária a comparação da opinião do foniatra, professor de canto e fonoaudiólogo. O melhor período para cantar um vasto repertório é dos 9 aos 13 anos. O ensino do canto à criança deve ser mais artístico e higiênico do que científico e técnico. É útil aproveitar as grandes faculdades imitativas e assimilativas que possuem. Em geral, as crianças cantam gritando, com esforço, timbre aberto e voz branca. 0 termo voz branca, porém, é mal utilizado quando empregado para descrever a voz de uma criança cantora treinada. Nos melhores coros infantis do mundo, observa-se uma escola própria de cada instituição e um sistema de internato em que as crianças permanecem por 4 ou 5 anos, tendo aulas de educação musical, técnica vocal e repertório.
Para o canto infantil, considera-se a duração fonorrespiratória curta quando uma nota dada não passa de 15 segundos. Além da idade, o tempo de treinamento da criança no coro também influi sobre esta medida. No coro de Montserrat observa-se: entre 9 e 10 anos, de 10 a 15 s; entre 11 e 12 anos, de 20 a 25 s; entre 13 e 14 anos, de 25 a 30 s.
A conduta fonatória deve ser ensinada levando-se em consideração a acomodação harmônica do relaxamento, respiração costodiafragmática, coordenação, ressonância e emissão. Para atingir rima boa qualidade de voz, é necessário utilizar uma boa técnica vocal, evitar o esforço desmedido e cuidar da higiene vocal.
A voz é considerada impostada quando pode produzir sons cheios, firmes, redondos, vibrantes, homogêneos, sem vacilações ou tremores em toda a sua extensão, que aumentará progressivamente com a idade.

 

JACKSON E, JACKSON-MENALDI CA. Técnicas vocales existentes en el mundo. La voz normal. Buenos Aires, Panamericana, 1993. P. 191-207


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