OS GRANDES COROS DO MUNDO

Em pleno século XIX, surgiram em Viena dois dos coros europeus mais importan­tes e de maior transcendência artística: a Wiener Singverein, da Sociedade de Amigos de Música (Gesellschaft der Mu­sikfreunde) e a Wiener Singakademie. Fundados em 1858, os dois agrupamen­tos foram perdendo a sua independên­cia, acabando por ficar ligados, com o decorrer dos anos, à Konzerthausgesell­schaft.
A Wiener Singverein levou a cabo um importante trabalho de difusão da música coral e sinfônico-coral. São nu­merosos os concertos efetuados sob a direção de músicos eminentes. Entre outros, quer em situação permanente quer como diretores convidados, há que salientar Berlioz, Rubinstein, Brahms, Liszt, Richter, d'Albert, Löwe, Mahler, Mascagni, Weingartner, Walter, Furtwängler e Richard Strauss. Os ele­vados níveis de perfeição interpretativa e de qualidade vocal alcançados nas suas épocas anteriores são mantidos atualmente pelo seu diretor, Ferdinand Grossmann. A partir de 1945, a Wiener Singverein tem sido constantemente reclamada pelas mais prestigiosas ba­tutas, como a de Herbert von Karajan. Entre as primeiras obras dadas a co­nhecer por este conjunto, encontram-se o Réquiem, a Canção do Destino e Nännie, de Brahms; o Salmo CL, de Bruckner; a 8ª sinfonia, de Mahler; Das Buch mit sieben Siegeln, de Franz Schmidt, etc. Estreou também, em Vie­na, a Paixão segundo S. Mateus, a Paixão segundo S. João, a Missa, em si menor, e o Oratório de Natal, de Bach; a 3ª sinfonia, de Mahler, e obras de Strauss e Wolf.
Trajetória semelhante foi a seguida pela Wiener Singakademie, criada es­pecialmente para a representação de oratórios. Um dos seus diretores mais famosos foi Brahms, que manteve uma estreita relação com este conjunto. Nomeado seu diretor em 1863, este fato, segundo parece, induziu-o a escolher Viena como residência permanente. Posteriormente, foi dirigida por Dessoff, Heuberger, Grädener, Lafite, Bruno Walter, Siegfried Ochs, Löwe, Klenau, Konrath e Nilius. Como maestros convi­dados, a Singakademie teve, entre ou­tros, Weingartner, Heger, Krauss e Strauss. Participou em concertos im­portantes e significativos. Convém refe­rir, por exemplo, a primeira audição em Viena da 8ª sinfonia de Mahler, sob a direção de Bruno Walter (a Wiener Singverein fizera-o em Munique, em 1910). Em 1913, a Singakademie uniu­-se à Konzertverein em virtude da inau­guração da Konzerthaus. (A Konzertve­rein, substituída, em 1938, pela Kon­zerthausgesellschaft, é, juntamente com a Gesellschaft der Musikfreunde — Sociedade de Amigos de Música —, uma das principais instituições musicais de Viena.) O Festival Internacional de Música, iniciado em 1947, deu à Singa­kademie a oportunidade de se distin­guir como intérprete da música do nosso século, com a execução, entre outras, de obras de Hindemith e Ho­negger.
Entre as sociedades corais indepen­dentes constituídas em Viena, há que fazer uma menção especial à Associa­ção de Concertos do Coro da ópera do Estado, fundada em 1927 por V. Mai­wald, e que integrou as melhores vozes corais da ópera. O seu primeiro diretor, Franz Schalk, cultivou sistematicamente o canto a cappella (sem acompanha­mento). Sob a direção de Clemens Krauss, o Coro da ópera obteve gran­des êxitos com a interpretação de obras de Strauss. Vários maestros convidados alternaram com Krauss nas tarefas diretivas, entre eles, fundamen­talmente, Weingartner, Walter, Toscani­ni, Furtwängler, Barbirolli, Scherchen e Klemperer.
Impossível omitir, nesta breve rese­nha, a referência a um dos grupos corais de maior popularidade mundial: os Wiener Sängerknaben (“Os Meninos Cantores de Viena”), considerados, do ponto de vista artístico, descendentes diretos do Seminário de Santo Estevão, centro a que, na infância, pertenceram, entre outros, Haydn e Schubert.
Entre os atuais conjuntos corais ingle­ses destaca-se o New Philharmonica Chorus: fundado em 1957, foi conheci­do pelo nome de Philharmonica Chorus. Composto por amadores, foi-se con­vertendo, pouco a pouco, num dos pri­meiros agrupamentos do seu gênero, tendo sido dirigido por maestros de grande prestígio, como Klemperer, von Karajan, Giulini, Kubelik, Maazel, Bou­lez, etc.
Um dos mais antigos grupos londrinos é a Royal — Choral Society, conjunto de aproximadamente 850 vozes, que teve origem num coro formado e dirigido por Gounod para a abertura, em 1871, do Royal Albert Hall. Em 1872, uniu-se ao coro de Barnby, especializado na inter­pretação de oratórios. O seu nome pri­mitivo foi Royal Albert Hall Choral So­ciety, tendo adotado, em 1888, o de Royal Choral Society.
Por sua vez, a London Choral So­ciety, outro dos grupos ingleses de maior tradição, foi criada em 1903. Fundada e dirigida durante muitos anos por Arthur Fagge — falecido em 1943 —, deu o seu primeiro concerto em outubro daquele ano. Desde essa primeira tem­porada, em que, pela primeira vez, se interpretou em Londres O Sonho de Ge­rôncio, de Elgar, a sociedade tem se­guido uma política cuja tendência é equilibrar o repertório habitual com as criações dos compositores contempo­râneos.
Por último, entre os coros londrinos, convém referir o Philharmonic Choir. Este conjunto de 300 vozes foi fundado em 1919 e destinado tanto à interpreta­ção da música sinfônica como à da mú­sica a cappella que exigisse grande nú­mero de cantores. Este coro apareceu pela primeira vez num concerto do Royal Philharmonic Society, a 26 de fe­vereiro do mesmo ano, com a interpre­tação de um moteto de Bach, de The Song of the High Hills, de Delius, e da 9ª sinfonia de Beethoven.
Nova Iorque foi também palco de uma grande proliferação de grupos e socie­dades corais. Uma delas é a Schola Cantorum. A sua história remonta a no­vembro de 1909, data em que Kurt Schindler formou um coro de 40 mulhe­res para interpretar Sirènes, de Debus­sy, com a Orquestra Filarmônica. Foi este o núcleo do coro misto de 200 vo­zes organizado por Schindler em 1910. O nome atual foi adotado dois anos mais tarde. Schindler dirigiu os concer­tos da Schola Cantorum durante a temporada de 1925-1926. No entanto, iria ser Hugg Ross que, depois de ter partilhado com M. Dessoff a temporada de 1926-1927, se guindaria a diretor permanente do conjunto. O trabalho da Schola Cantorum, sob a direção de Schindler e Ross, distinguiu-se devido às interpretações de música pouco conhecida, quer antiga quer contempo­rânea. Entre as obras contemporâneas divulgadas em Nova Iorque por este co­ro podem salientar-se Sacred Service, de E. Bloch; Persephone, de Stravinsky; O Festim de Baltasar, de Walton; a versão de concerto da ópera Júlio César, de Malipiero, etc.
A lista de grupos corais de fama internacional poderia ser quase interminável. Se lhe juntássemos os conjuntos não muito conhecidos nem assíduos nas salas de concertos, mas de inegável transcendência artística, necessitaríamos de um espaço de que não dispomos para apresentarmos um panorama completo do canto coral na atualidade. Citemos, a título de exemplo, o Coro da Radiodifusão Bávara, o Coro Bach de Munique, o Coro da Radiodifusão do Norte da Alemanha, os coros dos diferentes teatros de ópera (Berlim, Milão, Nova Iorque, etc.), Coro de Lausanne, Coro Acadêmico de Leningrado, etc. A estes poderiam acrescentar-se os pequenos grupos corais dedicados especialmente à difusão da música antiga. Basta apontar como exemplo o Pro Cantione Antiqua e The Early Music Consort, ambos de Londres.
Em Portugal, a tradição coral recebeu um importante renovo na primeira metade deste século. Às duas grandes formações corais-sinfônicos, a Sociedade Coral Duarte Lobo, fundada por Ivo Cruz em 1931, e a Sociedade Coral de Lisboa, criada por Frederico de Freitas Branco em 1940, ficaram-se devendo as audições de grandes obras como as Paixões segundo S. Mateus e S. João. de Bach; As Estações, de Haydn; a 9ª sinfonia, de Beethoven; o oratório Elias, de Mendelssohn; o Réquiem à Memória de Camões, de Bontem­po; etc. Voltado essencialmente para a música a cappella, o coro misto Poly­phonia, que o musicólogo Mário de Sampayo Ribeiro fundou em 1941 e di­rigiu até à sua morte em 1966, teve por sua vez uma ação relevante na valoriza­ção e difusão do valioso repertório da escola polifônica portuguesa seiscen­tista, até aí praticamente desconhecido.


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