A ÓPERA DE VIENA

Pode afirmar-se, quase sem qualquer dúvida, que Viena é a cidade mais musical do mundo, só comparável a Londres: as duas possuem um público melômano numeroso e entendido e um elevado número de cultores e de manifestações. No entanto, Viena supera a capital britânica pela sua tradição e sua história, a que não é estranho o fato de nela terem vivido vários grandes compositores dos finais do século xviii e do xix. Quanto ao gênero lírico, a cidade contava já com um público de muitos anos e tinha tido várias salas bem conhecidas como o Kärntnertortheater (inaugurado em 1708), o Theater bei der Hofburg — aberto em 1748 e onde se realizaram as primeiras representações de Orfeo ed Euridice e Alceste, de Gluck, O Rapto do Serralho, As Bodas de Fígaro e Cosí fan tutte, de Mozart, O Casamento Secreto, de Cimarosa —, o Theater auf der Wieden — que estreou a A Flauta Mágica, de Mozart —, e o Theater an der Wien — onde foi interpretado, pela primeira vez, o Fidélio, de Beethoven.
Nos anos que precederam a inaugura­ção da nova ópera, Viena presenciou os êxitos das obras de Rossini, Donizetti e Verdi, as estréias de Der Watfenschmied, de Lortzing, e Martha, de Flotow, e assistiu à representação de Lohengrin, sob a direção do próprio Wagner, em 1861. Nesse mesmo ano, começou a construção do novo e imponente edifício da ópera, de estilo renascentista fran­cês, sob a direção dos arquitetos Eduard von der Nüll e August Siccard von Siccardsburg. As obras custaram mais de seis milhões de florins ouro. A sala tinha capacidade para 2.260 espectado­res. A Ópera de Viena, que, até 1918, foi conhecida pelo nome de Hofoper (Ópera da Corte), foi inaugurada em 25 de maio de 1869, com o D. João, de Mozart.
O seu primeiro diretor foi J. F. Her­beck, que, entre outras obras, apresentou a primeira versão vienense da Aida, de Verdi. Sucedeu-lhe, de 1875 a 1880, Franz Janner, que contratou Hans Richter como diretor musical, o qual montou, pela primeira vez em Viena, O Anel do Nibelungo, de Wagner, e San­são e Dalila, de Saint-Saëns; entre 1880 e 1896, a direção foi confiada a William Jahn, que continuou a contar com a cola­boração de Richter e incluiu na companhia titular os artistas que haviam inter­pretado, em 1881, a estréia do Parsifal, em Bayreuth: Amalie Materna, Hermann Winkelmann, Theodor Reichmann e Emil Scaria. Pertenceram também à compa­nhia os cantores que, em 1892, foram os protagonistas da primeira representação em Viena da ópera Werther, de Massenet: Marie Renard e Ernest van Dyck.
De 1897 a 1907, a inteligente direção de Gustav Mahler imprimiu um altíssimo nível à ópera de Viena. Mahler era não só um extraordinário compositor e um grande diretor de orquestra mas também um homem de teatro que soube organi­zar seriamente e dar um toque de auten­ticidade e renovação a um centro da importância da ópera de Viena. Nessa década, Mahler realizou um trabalho se­melhante àquele que Toscanini levou a cabo no Scala de Milão e, com cantores como Anna Bahr-Mildenburg, Marie Gutheil-Schoder, Selma Kurz, Lucie Weidt, Erik Schmedes, Leo Slezak, Richard Mayr e Friedrich Weidmann, es­tabeleceu versões quase paradigmáti­cas, de obras como a Tetralogia, de Wagner, o Fidélio, de Beethoven, as cinco óperas mais conhecidas de Mo­zart, Louise, de Charpentier, O Correge­dor, de Wolf, Aida e Falstaff, de Verdi, e A Viúva Alegre, de Johann Strauss.
Um pouco decadente, em comparação com o anterior, foi o primeiro período (1907-1911) em que Felix Weingartner dirigiu a ópera de Viena. Sucedeu-lhe, com maior êxito, de 1911 a 1918, Hans Gregor, que estreou pela primeira vez em Viena obras como o Cavaleiro da Rosa, de Richard Strauss (a partir daí, um dos pilares do repertório deste tea­tro), La fanciulla de/ West, de Puccini, Pelléas et Mélisande, de Debussy, e Parsifal, de Wagner, e descobriu canto­res que viriam a ser figuras lendárias nesta instituição: Maria Jeritza, Lotte Lehmann e Alfred Piccaver.
No final da Primeira Guerra Mundial, a Ópera mudou o seu nome para Sta­atsoper (Ópera do Estado). Franz Schalk foi o seu diretor musical e artístico ao longo de onze anos, de 1918 a 1929. Durante quatro anos, entre 1920 e 1924, foi assistido no seu trabalho por Richard Strauss. Este período não registrou nenhuma estréia mundial de importân­cia, mas foi nele que se realizaram as primeiras audições vienenses de óperas como A Mulher sem Sombra, de Richard Strauss, Boris Godunof, de Mussorgski, e Turandot, de Puccini. Luise Helletsgru­ber, Felice Huni-Mihacsek, Elisabeth Schumann, Alfred Jerger e Josef von Manowarda desfilaram por Viena nessa época.
Os diretores artísticos seguintes foram Clemens Krauss (1929-1934), cujo abandono do cargo para se mudar para Munique e, depois, para Berlim, foi considerado um grave erro político; no­vamente, Felix Weingartner (1934-1936) e Bruno Walter (1936-1938). Nesta dé­cada, em que Viena gozou de um am­biente alegre e despreocupado, a sua Ópera contou com o concurso de canto­res como Lotte Lehmann e de novos ar­tistas como Nemeth, Novotná, Kern, Ur­suleac, Konetzni, Olszewska, Dermota, Kiepura, Taubel, Võlker, Schorr e Rode.
Em 1938, a chegada à Áustria da Ans­chluss Politik forçou artistas como Bruno Walter, Lotte Lehmann, Elisabeth Schu­mann, Richard Tauber, Alfred Piccaver, Friedrich Schorr, Alexander Kipnis e Emanuel List a abandonarem o país a cujo pulsar musical se encontravam tão ligados.
Depois de um período muito difícil e caótico, tanto artística como administra­tivamente, Karl Böhm foi nomeado em 1943 diretor artístico. O seu primeiro tra­balho consistiu num ciclo dedicado a Richard Strauss, por ocasião do seu oc­togésimo aniversário. A primeira obra a ser cantada foi Capriccio, que teve a presença do próprio compositor. Em 30 de junho de 1944, Böhm dirigiu uma representação de 0 Crepúsculo dos Deuses, de Wagner, a última que se rea­lizou na velha ópera. Em setembro desse mesmo ano, o teatro foi encerrado por ordem de Goering e, em 12 de março de 1945, foi quase totalmente destruído pelos bombardeamentos. Poucos dias depois, a 1 de maio, a companhia levou à cena, na Volksoper, As Bodas de Fíga­ro, de Mozart, sob a direção de Krips.
Durante os dez anos que durou a re­construção do edifício, a companhia atuou regularmente no histórico Theater an der Wien, com Franz Salmhofer como diretor-geral e Karl Böhm, Josef Krips e Clemens Krauss como diretores artísti­cos.
Visto que do velho edifício só ficaram de pé as paredes exteriores e o vestíbu­lo, o arquiteto contratado para o recons­truir, Boltenstern, decidiu reedificar o resto sem se sentir, de forma alguma, vinculado aos planos originais. Deste modo, surgiu uma sala de linha mais mo­derna e de maior sobriedade do que a anterior, com uma capacidade de 2.220 espectadores. O palco foi dotado das úl­timas inovações técnicas. O custo total das obras elevou-se a 260 milhões de schillings. No dia da sua inauguração, em 5 de novembro de 1955, com a representação de Fidélio dirigida por Böhm, a platéia e os cinco andares do teatro vibraram de forma especial com as conotações políticas da obra de Beet­hoven. Em 1956, Böhm, acerbamente criticado por aquilo que muitos conside­ravam o abandono freqüente das suas funções, demitiu-se do cargo de diretor musical. Foi substituído por Herbert von Karajan, que, até 1964, dirigiu acertada­mente os destinos do grande teatro vie­nense, concedendo uma especial impor­tância ao repertório italiano e realizando intercâmbios freqüentes com o Scala de Milão.
A Ópera de Viena continua a ter um repertório eclético, com elencos em que participam não só os membros da com­panhia, muitos dos quais de prestígio internacional, mas também, como artis­tas convidados, figuras de primeira categoria da atualidade. Em 1981, o cargo de diretor artístico do teatro vienense recaiu em Lorin Maazel.


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