BAIXO E BARÍTONO

São dois tipos de voz que se confun­dem, por vezes, embora, na realidade, entre um baixo profundo e um barítono lírico possa chegar a existir uma enor­me diferença tímbrica e de tessitura. No baixo, as cordas vocais medem cerca de 2,4 cm a 2,5 cm; no barítono, de 2,2 cm a 2,4 cm. Nos baixos, predomina sobretudo a posição de peito, em que a voz, apoiada na caixa torácica, pode desenvolver as mais graves sonorida­des. A passagem produz-se, em regra, perto do ré bemol3, embora a projeção na cabeça, a ampliação do som, seja, normalmente, muito limitada por proble­mas de tessitura. Assim, as ressonân­cias são procuradas muitas vezes em cavidades faríngeas ou nasais que permitem colocar a voz mais na másca­ra. A sua tessitura média costuma estender-se do ré, ao sol 3. A voz de barítono puro (dramático ou lírico) tem a passagem no mi bemol3 e possui uma estrutura e uma proporção emissora e posicional semelhante às do tenor, mesmo quando são também mais im­portantes, sonoros e extensos os regis­tros grave e médio. De qualquer manei­ra, uma boa voz de barítono, cuja tessi­tura média pode ir de fá, ao 1á3, tem de conter, com relativa facilidade e brilho, pelo menos O fás e o sola.
Em princípio, não existe qualquer se­paração entre aquilo a que chamamos vozes de baixo e de barítono. Durante muitos anos, assemelharam-se em tim­bre e tessitura e os compositores não estabeleceram verdadeiras diferenças entre uma e outra. Bach escreveu, nas suas cantatas e paixões, uma parte destinada, de uma forma genérica, à voz masculina mais grave, à voz “bai­xa”. Hoje, quando se atribuem estas partes a vozes mais escuras (baixas) ou mais claras (barítonos), obedece-se a critérios caracterológicos. Mozart foi um dos primeiros a distinguir, nas suas óperas, os baixos profundos, dramáti­cos (Sarastro) ou bufos (Osmin), dos barítonos (Papageno), o que se devia ao tipo de vozes à sua disposição. De qualquer modo, Mozart escreveu muitas partes graves que não tinham um desti­natário claro e que podiam ser interpre­tadas quer por um baixo quer por um barítono. Recordemos os papéis de D. João, Conde, Fígaro e até Leporello.

Classificação
Baixo profundo. É a voz mais grave e “dura”. Também chamado baixo “escuro”, tem uma enorme consistência e amplitude na zona grave média, para que costumam estar escritas as suas particellas, não se chegando, assim, a alcançar muitas vezes a zona da passa­gem, de modo que, quando é preciso proceder à mudança para a posição da cabeça, o cantor não esteja habituado a isso e não faça a projeção correspon­dente. Os papéis de baixo profundo são mais freqüentes no repertório alemão. Já citamos acima o de Sarastro de A Flauta Mágica e o de Osmin de O Rapto do Serralho, com descidas até ao mi, ou o fá,. Outros papéis característi­cos: Hunding de A Valquíria, o Eremita de Der Freischütz e Ochs de O Cavalei­ro da Rosa, que, tal como Osmin, possui um acentuado caráter bufo. É a voz mais grave, aquela a que os ale­mães chamam tiefer Bass. Dentro deste repertório concreto, podem citar-se os nomes de Ivar Andrésen (1896-1940) ou o de Alexander Kipnis, capazes também de abordar um repertório mais próprio do baixo cantante, dados os meios de que dispunham. Mais recente­mente, podemos apontar os alemães Ludwig Weber, Joseph Greindl e Got­tlob Frick. No repertório russo, onde as vozes de baixo são tão importantes, há que referir a parte de Pimen, que exige um baixo verdadeiramente profundo, não porque desça a profundidades abis­sais, mas sim pela forma como a tessi­tura é tratada. Dentro da produção ita­liana, onde não abundam os papéis pre­vistos nitidamente para vozes tão gra­ves, podemos mencionar o Ramfis de Aida ou, em menor grau, o Sparafucille de Rigoletto.
Baixo cantante. É a voz mais comum e a mais contemplada, uma vez que po­de abarcar uma grande quantidade de papéis, desde os criados para baixos­ —— baixos até aos concebidos para baríto­no (como, por exemplo, o Escamillo de Carmen). Haveria que incluir neste tipo as vozes de baixo centrais, com relativa solidez nos graves mas grande amplitu­de no centro, e as agudas ou líricas. Isso quer dizer que, na epígrafe de bai­xo cantante, se abrange uma grande di­versidade de vozes grandes, mais ou menos fáceis na zona inferior, mais ou menos amplas no centro e mais ou me­nos fáceis no agudo. De qualquer modo, o que irá caracterizar este tipo de voz é a redondez, o equilíbrio e a homogenei­dade entre os diferentes registros, uma vez que as partes em que têm de intervir assim o exigem, de uma maneira ge­ral. Pensemos, por exemplo, dentro do repertório italiano, no Padre Guardião de A Força do Destino ou, em especial, no Filipe II de D. Carlos. São persona­gens que têm uma escrita ampla, que sobem freqüentemente à zona superior — limite de muitas vozes graves — e que requerem uma continuidade no canto e uma ligação no fraseio para que nem todas as vozes de baixo servem. Baixos cantantes são também os que abordam os papéis fundamentais deste tipo no repertório francês, como o Me­fistófeles de Fausto. São ainda os bai­xos cantantes os que melhor se identifi­cam com os grandes papéis da ópera russa, como o Boris de Boris Godunof ou o Dositeu de Kovanchtchina. Feodor Chaliápine (1873-1938), criador de toda a moderna escola interpretativa soviéti­ca deste tipo de voz, era um baixo cantante. O búlgaro Boris Christof, im­portante intérprete das obras russas, também um baixo cantante.
Barítono dramático. De timbre som­brio, por vezes muito próximo do bai­xo cantante em algumas latitudes. É também chamado baixo-barítono ou barítono heróico. É uma voz consistente, em geral escura, muito ampla na zona inferior e com punch na superior. Voz habitualmente volumosa. Um exemplo muito característico de papel que requer claramente uma voz deste tipo é o de Wotan, personagem fundamental da tetralogia wagneriana, onde lhe é exigi­do subir do lá bemol' até ao fá3. Outras personagens de Wagner, como o Sachs, de Os Mestres Cantores, ou o Holandês, de O Navio Fantasma, pertencem a este tipo. São partes que chegaram a ser interpretadas por baixos propriamente ditos, sobretudo a de Sachs. Há que referir aqui, como barítonos dramáticos ou baixos-barítonos, intérpretes como Friedrich Schorr, Ferdinand Frantz e, mais recentemente, Hans Hotter e Theo Adam. Dentro da ópera italiana, onde as exigências quanto a potência e consis­tência são menores, podem destacar-se como exemplos de papéis de barítono dramático o Barnaba de La Gioconda, o Amonasro de Aida ou o Scarpia de Tosca.
Barítono lírico. De timbre mais claro, de menos “peso” e caráter, mais flexível nas agilidades, é a voz característica da escrita romântica de Bellini, Donizetti e da primeira fase de Verdi. Voz que, hoje em dia, em que estão a desaparecer praticamente todos os barítonos verda­deiramente dramáticos, se apropriou do panorama lírico. E assim, especialmente no que diz respeito ao repertório italiano, os grandes papéis dramáticos costumam ser interpretados por vozes deste tipo, que tiveram os seus representantes má­ximos em barítonos como Antonio Tamburini (1800-1876) ou Mattia Battis­tini (1856-1928). Vozes luminosas, perfeitamente empostadas, de emissão aérea e facilidade na coloratura, mas também vozes cheias e rotundamente baritonais, como a de um Mario Sam­marco (1868-1939) ou de um Giuseppe di Luca (1876-1950). Os papéis de Riccardo, em Os Puritanos, de Enrico, em Lucia di Lammermoor, de Germont, em La Traviata, exigem este tipo de vo­zes, tal como, no repertório francês, o de Valentim (Fausto). Em Itália, costuma chamar-se barítono “brilhante” ao lírico com facilidade para as fioriture e dotado de um timbre ligeiro. Barítono idôneo para interpretar o Dandini, de La Cene­rentola, ou o Fígaro, de O Barbeiro de Sevilha.
Na Alemanha, chama-se Spielbariton àquele que poderia ser considerado um barítono com corpo e graves próprios de um baixo cantante, mas, ao mesmo tem­po, luminoso e flexível no fraseio e solto na zona superior. Por exemplo, o D. João, de que um dos melhores intér­pretes foi o português Francisco d’An­drade (1856-1921), ou o Fígaro, de As Bodas. Os franceses chamam barítono Martin a um tipo de voz muito lírica, próxima da de tenor. O nome provém do barítono francês Jean-Blaise Martin. É uma voz muito adequada para a parte de Pelléas, com a extensão do dó2 ao 1á3.



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