ZUBIN MEHTA

O carismático maestro fala de sua empatia com o grupo La Fura dels Baus, do motivo para não tocar Wagner em Israel e das boas lembranças do Brasil.
Por Irineu Franco Perpetuo
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Mehta está tão ligado à Filarmônica de Israel que muita gente nem sabe que ele, na verdade, não nasceu no Oriente Médio, e sim em Mumbai (à época, Bombaim), na Índia, em 1936. Por coincidência, no mesmo ano em que a orquestra à qual seu nome seria associado foi fundada, por iniciativa de Bronislaw Huberman, e ainda com o nome de Orquestra da Palestina. Filho de Mehli Mehta, violinista e regente fundador da Sinfônica de Bombaim, Zubin pretendia estudar medicina, mas acabou se encaminhando para a música, em Viena. Seu instrumento era o contrabaixo, e há um DVD (Franz Schubert – The Trout) no qual ele o empunha com classe e elegância, tocando o quinteto A truta, de Schubert, ao lado de feras como Daniel Barenboim (piano), Itzhak Perlman (violino), Jacqueline Du Pré (violoncelo) e Pinchas Zukerman (viola).

Como regente, após um período como assistente na Filarmônica Real de Liverpool e como titular na Sinfônica de Montreal, Mehta começou a construir renome internacional no período em que colocou a Filarmônica de Los Angeles no mapa das grandes orquestras do planeta (1962-1978).

Depois disso, foi ainda diretor musical da Filarmônica de Nova York (1978-1991) e da Bayerische Staatsoper, em Munique (1998-2006). A relação com a Filarmônica de Israel é antiga: Mehta foi nomeado, em 1969, Music Advisor (conselheiro musical) e, em 1977, diretor musical da orquestra, cargo que virou vitalício em 1981.

Celebrado por um estilo de regência caloroso e comunicativo, que privilegia a teatralidade e a opulência sonora, Zubin Mehta viu sua popularidade transbordar das fronteiras da música clássica quando, em 1990 e 1994, regeu os concertos dos Três Tenores – José Carreras, Plácido Domingo e Luciano Pavarotti – que abriram as copas do mundo de futebol destes anos, e foram televisionados para todo o planeta.
Atualmente, o senhor está regendo O Anel do Nibelungo, de Wagner. Como surgiu a ideia dessa produção? Bem, cheguei a Valência como convidado de Helga Schmidt, superintendente do Palacio de las Artes Reina Sofía. Como você sabe, é um teatro novo [foi inaugurado em 2005]. Visitei o teatro antes que ele ficasse pronto e propus o Anel, mas com a condição de fazê-lo apenas se La Fura aceitasse participar.

Por que o senhor queria La Fura dels Baus na produção? Ah, eu vi um espetáculo deles no Festival de Salzburgo [Áustria] e foi amor à primeira vista. Era uma montagem de A danação de Fausto, de Berlioz. De vez em quando me acontece isso: ver alguém em cena e imediatamente querer trabalhar junto. E deu muito certo.

O senhor acha que algum dia o Anel será visto em Israel? Bem, vamos começar primeiro com uma abertura de Wagner, em concerto, e depois veremos. Um dia isso vai acontecer, mas as restrições a Wagner por lá são uma coisa humana, que temos que tratar com sensibilidade. Ainda há gente em Israel com números nos braços, que foram tatuados nos campos de concentração. Essas pessoas não querem se lembrar de todo aquele terror. Temos que respeitá-las.

O senhor está trazendo ao Brasil sinfonias de Beethoven e poemas sinfônicos de Richard Strauss. Como foi montado o programa da turnê? Bem, tivemos que ver o que já havíamos feito nas outras cinco turnês brasileiras, em primeiro lugar. Depois, escolhemos obras que soam muito bem com a orquestra. Eu gostaria de ter incluído também uma peça de um compositor israelense, mas, infelizmente, não foi possível.

O senhor tem alguma lembrança especial das outras vezes em que esteve por aqui? Sempre me lembro dos concertos ao ar livre, no Ibirapuera. Eu adoro essas ocasiões em que as pessoas não têm que pagar, nem se arrumar; elas simplesmente vão ao parque para nos assistir. Lembro-me de uma vez no Ibirapuera em que chovia, fazia frio, e mesmo assim muita gente foi ver a apresentação.

Como o senhor divide seu tempo em meio a tantos compromissos internacionais? Basicamente, eu vou três vezes ao ano a Israel para passar um mês de cada vez com a Filarmônica. E também me desloco duas vezes ao ano para Florença [Itália], para reger o Maggio Musicale Fiorentino. Neste ano, minha agenda está um pouco apertada, pois tenho duas turnês mundiais com a Filarmônica de Viena.

Com tantos deslocamentos, existe algum lugar que o senhor considere a sua casa? Minha casa oficial é nos Estados Unidos, em Los Angeles, mas não vou muito para lá. Fico mais na Europa, onde tenho uma bela residência em Florença. E, como estou na minha 40ª temporada com a Filarmônica de Israel, é impossível não me sentir em casa por lá.

Qual o senhor avalia ter sido o seu maior feito durante todo esse período à frente da Filarmônica de Israel? A orquestra se tornou mais internacional no repertório e ganhou a flexibilidade de tocar nos mais diferentes estilos. Hoje, a Filarmônica muda seu temperamento e sonoridade de acordo com o compositor que está executando.

Existe algo como uma filosofia ou um método de trabalho de Zubin Mehta? A honestidade para com os desejos do compositor. O compositor é meu mestre, e a partitura, minha Bíblia. Eu começo o trabalho com a partitura e termino com a música. E também é importante o respeito à personalidade do músico da orquestra. Ele é um livre-pensador e tem ideias próprias, que, às vezes, podem conflitar com as do maestro. Nessas horas, o regente tem que resolver os conflitos de maneira diplomática e democrática.

No festival de Tanglewood (EUA), o senhor teve aulas com o maestro brasileiro Eleazar de Carvalho (1912-1996). Que lembranças tem dele? Eleazar foi meu amigo durante toda a vida. Lembro-me até hoje da última vez em que estivemos juntos em um jantar delicioso. Ele era uma pessoa maravilhosa.

Há alguma coisa que o senhor lembre de ter aprendido com ele? Olha, quando estava em Tanglewood, nós trabalhamos a Sinfonia de câmara, de Schönberg. Ele me deu muitas dicas de técnica, e nessa partitura específica, o que ele me ensinou levei para a vida. Mas, para mim, mais do que um mestre, ele era um amigo, ao qual sou muito grato.

Quais são os seus hábitos de leitura? Leio mais quando estou no avião, viajando, ou então quando tiro férias ou em feriados prolongados. No geral, não tenho muito tempo para leituras, porque sempre estou estudando repertório. Veja, por exemplo, uma obra como o Anel do Nibelungo: por mais que você a tenha feito, sempre tem que voltar a ela e estudar.
Quando o senhor arruma tempo para leitura, o que gosta de ler? História. Tenho muito interesse por saber o que fizeram nossos ancestrais. E, como minha vida tem transcorrido em diversos países, acabei me interessando pela história de todos eles.

Em 2006, o senhor publicou uma autobiografia (Zubin Mehta: A partitura da minha vida: Lembranças, escrita em parceria com Renate von Matuschka). Como foi esse processo? Não foi nada fácil. Primeiro, porque foi em alemão e tive que melhorar bastante meu conhecimento do idioma. Depois, porque sou eu falando. E não é fácil se abrir para ninguém. Então, ela [Renate] me provocou.

O senhor gosta de ouvir gravações? Ouve as suas ou as de outros maestros? Ah, as minhas eu não ouço, porque fico muito nervoso. Ouço mais as dos grandes mestres do passado: Toscanini, Furtwängler, Celibidache.

O senhor tem alguma gravação para sair? Bem, quando terminarmos a entrevista, voltarei para a Sinfonia n.° 5, de Mahler, que gravei ao vivo com a Bayerische Staatsoper. Estou no processo de escolher os takes. Ela vai sair pela Farao Classics, uma gravadora especializada em lançar registros de performances ao vivo.

O senhor prefere as gravações de performances ao vivo àquelas feitas em estúdio? Gosto mais, sim, porque o resultado é mais imediato, mais real e, hoje em dia, economicamente mais viável, embora também tenha feito muitas gravações em estúdio. Agora, mesmo quando gravo em estúdio, eu nunca faço aquela coisa de gravar pedacinhos da obra para depois ir juntando: oito compassos aqui, depois oito compassos ali... Não. Mesmo em estúdio, eu sempre preferi fazer takes longos, com sentido e unidade.

Hoje em dia, a gravação de performances ao vivo parece ter se tornado a regra, pelo menos no caso das óperas, não? Faz muito tempo que não gravo uma ópera em estúdio. Todas as últimas que tenho registrado – La Traviata, Tristão e Isolda, Tannhäuser - têm sido gravações de performances. E esse Anel, que estamos fazendo em Valência, também está sendo filmado – e em qualidade HD.

O que é cultura para o senhor? Cultura é o laço mais forte a unir as pessoas. Assim como a ciência. É o caminho que leva de uma geração à outra. Por isso, os governos têm que apoiar tanto a cultura quanto a ciência. Sem a cultura, nos viveríamos no deserto. Temos que apoiar a cultura, pois temos que cuidar do futuro de nossos netos.

Texto na íntegra em http://www2.livrariacultura.com.br/culturanews/rc25/index2.asp?page=entrevista

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