Verdi

Giuseppe Fortunino Francesco Verdi nasceu em Roncole, a cinco quilômetros de Busseto (Parma), cidade próxima à Milão, a 10 de outubro de 1813. De família humilde, aprendeu a ler e escrever com um padre da cidade, quando tinha quase dez anos de idade. Seu pai, estalajadeiro de aldeia, percebendo a vocação musical de seu filho, mandou o menino estudar órgão, com o velho Pietro Baistrocchi, organista da igreja local. Mais tarde, com o intuito de aprimorar seus conhecimentos musicais, partiu para Busseto, onde tomou aulas com Provesi, maestro de capela do lugar.
Apaixonado por Margherita, a filha do comerciante A.Barezzi que possibilitou-lhe os estudos de música, Verdi foi para Milão apresentar-se no conservatório: queria impressionar a moça e conquistar uma vaga na escola de música. Seus conhecimentos foram considerados insuficientes e Verdi foi rejeitado. Embora decepcionado, continuou em Milão, trabalhando em V.Lavigna, um teórico e professor musical. Alguns anos depois, voltava a Busseto, convidado a ocupar o cargo de maestro da Filarmônica e organista de São Bartolomeu. Conquistou também o coração de Margherita, com quem se casou em 1836.
Três anos depois, com a ajuda da famosa soprano Giuseppina Strepponi, convenceu o empresário Mereli a montar sua primeira ópera, Oberto, conde de São Bonifácio, no Scala de Milão. O sucesso começou junto com a estréia do espetáculo, dia 17 de novembro de 1839. O empresário Morelli ficou tão entusiasmado com esse sucesso, que encomendou a Verdi uma série de óperas, que o compositor devia entregar de oito em oito meses. Mas o compositor passava por momentos difíceis em sua vida pessoal. Pouco antes, perdera seu primeiro filho. Dias depois da abertura da temporada, morrera seu segundo garoto e, por último, falecera Margherita, em 1840. A soprano Giuseppina, que o consolou nas desventuras, foi também a segunda esposa. Ela muito contribuiria para o sucesso de Verdi, inspirando e incentivando a compor.
Os maus momentos resultaram no fracasso em que se converteu a ópera-bufa ‘Un giorno di Regno’, escrita sob encomenda no ano em que ficou viúvo. Dois anos mais tarde, o mestre compõe Os lombardos na primeira Cruzada e Nabucco (1842) e a crítica atestou o seu renascimento.
Consagrado como um grande artista politizado e amado pelo seu povo, Verdi passou à outra etapa de sua de sua criação: elaborar personagens. Com base em textos de William Shakespeare, Victor Hugo e Alexandre Dumas e ajudado pelo roteirista Francesco Piave, Verdi passou a dedicar-se à dramaturgia. Estavam bem balanceados, no trabalho, a semântica sonora, a gesticulação cênica e a expressão facial dos atores. São desse período as três obras que lhe renderam fama mundial: Rigoletto (1851), O trovador (1853) e ‘La Traviata’ (1853).
Convidado a representar seu país na Grande Exposição Internacional de Londres, em 1862, o compositor deu asas à sua militância política. Escreveu uma cantata exaltando a fraternidade universal e demonstrando que só a união entre os países colocaria fim à opressão dos desprotegidos pelos poderes maiores. Aos sucessos internacionais correspondia a glória nacional; a música de Verdi acompanhou a transformação na península italiana em Estado independente, livre e unitário. Foi membro correspondente da Academia de Belas-Artes de Paris, deputado em 1861, e senador nomeado por Vítor Manuel, em 1874.
Da sua riquíssima obra, as três mais conhecidas representam exatamente o período final de sua talentosa trajetória. São elas: Aida, composta sob encomenda de Ismael Paxá, do governo egípcio, para a abertura do canal de Suez, Otello, uma tentativa bem sucedida de realizar Shakespeare na dramaturgia sonora e Falstaff, um texto deliciosamente cômico, baseado em As alegres comadres de Windsor, que Verdi reservou para tratar no fim da vida. Em 1895, recebeu do rei o título de Marquês de Busseto. No seu testamento, o octagenário deixou sua grande fortuna a uma fundação para ajudar jovens músicos pobres. Verdi morreu em Milão a 27 de janeiro de 1901.

Verdi também fez fama na política. Sempre foi um intelectual engajado, preocupava-se com os oprimidos e defendia a fraternidade universal. Essa faceta, várias vezes, apareceu em suas composições. Musicalmente, está próximo do Romantismo francês, de que adotou os fortes efeitos cênicos e deformações naturalísticas. Sua música caracteriza-se pela linha melódica harmoniosa e por uma suavidade que é bem um correspondente musical da própria língua italiana. Verdi buscou alcançar o sucesso por todos os meios: imitação de Bellini, argumentos fortemente dramáticos, exploração do patriotismo italiano, do qual era fervoroso adepto.
Primeira fase - Durante muitos anos, as primeiras óperas de Verdi só foram representadas da Itália. Mas por volta de 1920 surgiu, sobretudo na Alemanha, uma "Renascença de Verdi", que descobriu, naquelas obras, notáveis belezas musicais: Nabucco (1842), Ernani (1844), libreto tirado de Hernani, de Victor Hugo, Macbeth (1847), com libreto tirado de Shakespeare, Os bandoleiros (1847) e Luisa Miller, com libretos segundo dramas de Schiller. Nessas obras Verdi já é o maior representante italiano do Romantismo musical.
A ópera popular - Rigoletto (1851), O trovador (1853) e La Traviata (1853) foram os maiores sucessos de Verdi e são até hoje obras muito representadas no mundo inteiro, a verdadeira base do repertório. A crítica reagiu contra essa extraordinária popularidade, considerando as três obras como vulgares, inspiradas por falso romantismo.
A censura da vulgaridade não percebe a extraordinária riqueza e invenção melódica, e a censura do pseudo-romantismo não percebe os elementos realistas. No palco da ópera, até então povoado apenas por grandes figuras mitológicas e históricas, aparece em Rigoletto um corcunda e em La Traviata uma prostituta. No resto, o quarteto no último ato de Rigoletto e o prelúdio instrumental do último ato de La Traviata são trechos magistrais de música absoluta.
Mas antes de tudo, o romantismo das óperas de Verdi não é trivial. Os libretos, nos quais o compositor sempre colaborou, revelam até ao espectador menos musical os ideais de Verdi, não menos elevados que os de um Wagner: a fé na capacidade redentora do amor, a simpatia pelos humilhados e ofendidos, o protesto contra a injustiça do mundo. E é inegável a tragicidade dos grandes finais.
Transição - Essas qualidades todas também se encontram nas obras de transição para a última fase de Verdi: nas óperas fortemente melodramáticas Um baile à fantasia (1859) e A força do destino (1862), na sombria "grande ópera" histórica Don Carlo (1867) e sobretudo na grandiosa Aida (1871), que, por causa do seu acompanhamento orquestral mais elaborado, já começa a ser considerada como começo da última fase.
Última fase - Na verdade, a última fase, da velhice de Verdi, começa com o Requiem (1874), escrito para o primeiro aniversário da morte do grande romancista Manzoni. O Requiem foi, na época, criticado por ser mais música teatral, operística, do que música sacra. Hoje, ninguém contesta a essa música meio apaixonada e meio mística o lugar ao lado de Um requiem alemão, de Brahms.
Depois da longa pausa escreveu Verdi Otello (1887), a mais dramática e a mais trágica das suas óperas, e enfim deu o octogenário sua primeira ópera cômica, Falstaff (1893), cuja humorística fuga final é o resumo de sua grande sabedoria da arte e da vida. As últimas obras de Verdi são as quatro nobres peças sacras: Ave Maria (1889), Stabat Mater (1898), Laudi (1898) e Te Deum (1898).
A posteridade - O enorme sucesso popular que acompanhou toda a vida de Verdi persiste até hoje. Mas mudou a atitude, inicialmente hostil, da exigente crítica musical, graças sobretudo aos esforços de Toscanini, do musicólogo inglês Francis Toye e do romancista austríaco Franz Werfel.


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