O SCALA DE MILÃO

Tanto pela sua história gloriosa como pelo seu presente, o Scala de Milão é um dos maiores centros operísticos de maior significado e influência. Foi construído em conseqüência de um in­cêndio que provocou, em 1776, a destruição do Teatro Regio Ducale da capi­tal lombarda. Foi a imperatriz da Áustria quem encarregou da sua-construção o arquiteto Giuseppe Piermarini di Foli­gno. Deve o seu nome, Teatro alta Sca­Ia, ao fato de se erguer no local antes ocupado pela Igreja de Santa Maria delta Scala, fundada no século XIV, por Regina delta Scala, mulher do duque de Milão, Barnabà Visconti.
A sua inauguração data de 3 de agos­to de 1778, altura em que foi represen­tada, juntamente com dois bailados complementares, a ópera de Salieri Eu­ropa riconosciuta. Mas só em 1820, graças ao arquiteto Sanquirico, come­çou a adquirir o seu aspecto atual. Em 1854, abriu-se uma nova entrada princi­pal, numa ampla praça que comunica com a Piazza dei Duomo por meio da Galeria Vittorio Emmanuele.
O edifício foi alargado em 1867, ins­talou-se a luz elétrica em 1884 e foi restaurado em 1921. Em 1938, proce­deu-se a uma reforma técnica decisiva do palco. Em 1943, durante a Segunda Guerra Mundial, um bombardeamento causou graves danos ao teatro, tendo­-se salvo, felizmente, o palco. A reconstrução, obra do arquiteto Luigi Lorenzo Secchi, foi muito rápida e o Scala pôde abrir novamente as suas portas ao pú­blico a 11 de maio de 1946.
O palco do Scala mede 39,99 m de largura, de 25,33 m a 30,75 m de altura e 6,09 m de profundidade e a sala, em hemiciclo, tem capacidade para cerca de três mil pessoas, distribuídas entre a platéia, cento e cinqüenta e seis cama­rotes de quatro ordens e duas galerias. A sala é bela, sem exageros, e está extraordinariamente bem conservada, tal como todas as dependências do tea­tro. O foyer, embora não muito grande, tem uma elegante simplicidade. No vestíbulo, podem ver-se quatro está­tuas, de tamanho natural, de Rossini, Bellini, Donizetti e Verdi. No salão do primeiro andar encontram-se bustos de Puccini e de Toscanini.
A história artística do Scala é real­mente esplendorosa e, como baluarte incontestado da ópera italiana, tem co­mo uma das suas máximas coroas de glória a colaboração direta que soube estabelecer com os mais representativos compositores da península do sé­culo XIX. O primeiro deles foi Rossini, cuja primeira obra para o Scala, La pie­tra dei paragone, foi representada cinqüenta e três vezes no ano da sua estréia (1812). Rossini estrearia tam­bém no Scala Aureliano in Palmira, Il turco in Itália, La gazza ladra e Bianca e Falliero. Dá-se o caso verdadeira­mente revelador de terem sido suas na­da menos de trinta e duas das cinqüen­ta e duas óperas ali levadas à cena entre 1823 e 1825. Pouco depois, em 1827, Bellini estreou, no Scala, Il pirata, que constituiu uma autêntica revelação, e, depois, La straniera e Norma. Doni­zetti também colaborou diretamente com o Scala. Aí estreou nove óperas da sua abundante produção, entre elas, Anna Bolena, L'elisir d'amore, Lucrezia Borgia e Maria Stuart.
Giuseppe Verdi iniciou a sua carreira precisamente no Scala, onde estreou as quatro primeiras óperas: Oberto, conte di San Bonifacio, Un giorno di regno, Nabucco e I lombardi. Com Nabucco (1842), obteve um êxito extraordinário, cheio de conotações políticas, uma vez que o público milanês se sentiu identificado, devido à ocupação austríaca, com os hebreus cativos, especialmente no célebre coro “Va pensiero”. Depois de ter estreado Ernani, em Veneza, e I due Foscari, em Roma, Verdi voltou ao Sca­la, em 1845, com Giovanna d'Arco, ini­ciando-se então uma separação que se iria prolongar por vinte e quatro anos, até que, em 1869, estreou no Scala a sua segunda versão de La forza del destino. A esta seguiram-se a estréia européia de Aida, as novas versões de Simon Boccanegra e Don Carlo e, final­mente, as estréias triunfais das suas duas últimas óperas: Otello (1893) e Falstaff (1897).
Herdeiro das tradições operísticas ita­lianas, Giacomo Puccini estreou no Scala três das suas óperas: Edgar (a segunda do seu catálogo), Madama Butterfly, com a qual obteve um históri­co insucesso na noite da estréia, em 1904, e Turandot, que se estreou em 1926, sob a direção de Toscanini,, dois anos após a morte do seu autor.
Durante muitos anos, o Scala de­dicou-se praticamente à ópera italiana, mas, a partir do final do século XIX, co­meçou a alargar os seus horizontes e, progressivamente, incluiu na sua programação as obras de Wagner, Gluck, Strauss, Debussy, Charpentier, Dukas, Boródine, Mussorgski e outros. Coincidindo com o princípio dessa abertura, o Scala foi dirigido por uma figura que soube dar-lhe uma volta de modernida­de, serenidade e organização, de acordo com os novos tempos: Arturo Toscanini, que esteve ligado a este teatro durante três períodos: 1898-1903 (em que intro­duziu Wagner), 1906-1908 e 1921-1929. Por inspiração sua, no início deste último período, constituiu-se o chamado “Ente Autonomo”, que é, desde então, a estru­tura organizativa e financeira que vem regendo a vida dos principais teatros de ópera italianos.
Além de Toscanini, a história do Scala esteve sempre associada a figuras preeminentes da direção da orquestra. Entre os que estabeleceram uma colaboração mais duradoura ou frutuosa, po­deriam referir-se Faccio, Campanini, Mugnone, Vitale, Marinuzzi, Panizza, Serafin, Furtwãngler, Walter, De Sabata (sucessor de Toscanini, de 1929 a 1953), von Karajan, Giulini, Mitropoulos (que morreu no estrado do Scala, duran­te um ensaio, a 2 de novembro de 1960), Gavazzeni, Kleiber e Abbado.
Mas o Scala não foi só um centro de ópera. São célebres os seus ciclos de concertos (onde atuaram como solistas Liszt e Paganini, e, na qualidade de regentes, Richard Strauss, Casais e Stra­vinsky) e as freqüentes manifestações coreográficas que, seguidas com grande entusiasmo, assentam numa tradição que parte de Salvatore Viganò e culmina na figura graciosa de Carla Fracci.
Apesar de, durante os anos do fascismo, Mussolini ter tentado fazer da ópera de Roma o primeiro teatro de Itália, o Scala continuou a ocupar o primeiro lu­gar. Depois da sua destruição parcial e posterior reconstrução, pôde iniciar um novo e glorioso período em 11 de maio de 1946, com um memorável concerto que representou o regresso a Itália de Arturo Toscanini. Entre aquela data e 1972, o teatro foi dirigido por Antonio Ghiringhelli, que proporcionou a época gloriosa de Maria Callas, a que estão estreitamente ligados nomes tão signifi­cativos como os de Renata Tebaldi, Giu­lietta Simionato, Mario dei Monaco, Giu­seppe di Stefano, Franco Corelli, Ettore Bastianni, Luchino Visconti, Franco Zef­firelli, Giorgio Strehler, Margherita Wallmann ou Nicola Benois. Ghiringhelli cedeu a sovrintendenza a Paolo Grassi e este, por sua vez, a Carlo Maria Badini.
O edifício da ópera alberga um impor­tante museu teatral, fundado em 1913, o Piccola Scala, pequeno teatro inaugura­do em 1955, e uma escola de canto e outra de dança.
A companhia do Scala levou as suas produções ao estrangeiro, mais concre­tamente a partir de 1950, a Londres, Munique, Viena, Berlim, Edimburgo, Bruxelas, Moscou, Washington e, em 1981, a várias cidades do Japão.
Uma das tradições mantidas pelo tea­tro é a de inaugurar a sua temporada a 7 de dezembro, dia de Santo Ambrósio, patrono da cidade.

 

 

 


Pagina Inicial

SCALA DE MILÃO


O SCALA DE MILÃO

O SCALA DE MILÃO 2