O METROPOLITAN DE NOVA IORQUE

A ópera começou a tomar um certo auge em Nova Iorque a partir de 1825, quando a Academy of Music, que era a principal sede, deixou de poder satisfazer as exi­gências de um certo setor social que desejava ter também acesso à propriedade de um palco. A sua posse era con­siderada como um sinal visível de uma posição social e econômica relevante. Por esta razão, cerca de sessenta e cinco milionários tiveram a idéia de erigir um novo teatro de ópera. O arquiteto encarregado do projeto foi Joshua Clea­veland Cady, que construiu um teatro com uma fachada muito pouco atraente, uma sala esplêndida e espaçosa com capacidade para aproximadamente 3.500 espectadores e um palco com uma profundidade de reduzidas dimensões. Este foi o primeiro Metropolitan Opera House, edificado por subscrição e cujo custo se elevou a 1.733.000 dólares.
Inaugurado a 22 de outubro de 1883, com o Fausto, de Gounod, a sua vida prolongou-se até 1966, período em que foram representadas duzentas óperas diferentes.
A temporada inicial do primeiro Metro­politan, com Henry Abbey como diretor, parece ter-se saldado num déficit muito considerável, o que levou a uma mudan­ça de rumo que deu origem, entre 1844 e 1891, aos chamados “anos alemães”, durante os quais, sob a direção de Leo­pold e Walter Damrosch, teve preferên­cia o repertório alemão, com a introdu­ção nos Estados Unidos de obras como Tristão e Isolda, Os Mestres Cantores e a Tetralogia wagneriana. Levaram-se também à cena óperas francesas e italianas, mas cantadas, no princípio deste período, em alemão.
Em 1891, começou a chamada Gol­den Age, que iria prolongar-se até 1903, com o regresso de Abbey à dire­ção. Falecido em 1896, sucedeu-lhe Maurice Grau. Estes anos foram céle­bres, quase exclusivamente pelo culto da personalidade dos intérpretes, entre os quais sobressaem nomes como os de Nellie Melba, Emma Eames, Lillian Nordica, os irmãos Edouard e Jean de Reszke, Francisco Vinas, Pol Plançon, Francesco Tamagno e Victor Maurel.
Entre 1903 e 1908, a gerência passou a Heinrich Conrad, que procurou ofere­cer espetáculos mais completos. Na sua primeira temporada, teve a sorte de apresentar um jovem tenor napolitano que viria a converter-se numa figura decisiva da história do Metropolitan, Enrico Caruso. No mesmo ano, contrariando o prescrito por Wagner, Conrad deu a pri­meira representação de Parsifal fora de Bayreuth. Também neste qüinqüênio, chegou ao Metropolitan um regente do prestígio de Gustav Mahler, que se apresentou em 1907, com Tristão e Isolda.
Outra era de especial e brilhante significado iniciou-se em 1908, com a chegada a Nova Iorque, como diretor do Metropolitan, de Giulio Gatti-Casazza, que permaneceu nesse lugar até 1935, contando, nos seis primeiros anos, com a decisiva colaboração de Toscanini.
A direção de Gatti foi pródiga em acontecimentos, apresentando, em 1910, uma estréia mundial de reper­cussão universal, La fanciulla dei West, de Puccini, com Emmy Destinn, Enrico Caruso e Pasquale Amato, sob a dire­ção de Toscanini. Em 1913, causou sensação a primeira representação nos Estados Unidos de Boris Godunof. Pou­co depois, foram apresentadas três es­tréias importantes: Madame Sans Gê­ne, de Umberto Giordano, em 1915; Goyescas, de Enrique Granados, em 1916; e o tríptico pucciniano, 11 tabarro, Suor Angelica e Gianni Schicchi, em 1918.
Em 1921, aos 48 anos, faleceu Ca­ruso, cujo último espetáculo no Metropolitan se realizara no ano anterior com La juive, de Halévy. O grande artista tinha participado neste teatro em seis­centas e sete representações de cinqüenta óperas diferentes. Tentou-se preencher a sua ausência com três te­nores de categoria: Beniamino Gigli, Giovanni Martinelli e Giacomo Lauri­-Volpi. Pouco depois, apareceram ou­tros grandes intérpretes, como Lauritz Melchior, Lucrezia Bori e Feodor Chaliá­pine. Em 1931, iniciaram-se as transmissões radiofônicas das tardes de sábado, que viriam a ser tradicionais. Em 1935, última temporada da gestão de Gatti, iria surgir uma figura de pri­meira grandeza, Kirsten Flagstad. Foi a última de uma longa lista de celebrida­des que o diretor italiano levara a Nova Iorque e na qual, além dos já citados, há que incluir ainda, entre outros, os nomes de Geraldine Farrar, Claudia Muzio, Amelita Galli-Curci, Maria Barrientos, Rosa Ponselle, Lotte Lehmann, Lily Pons, Giuseppe de Lucca, Leo Slezak, Miguel Fleta, Titta Ruffo, Hipólito Lázaro, Ezio Pinza e Lawrence Tibbett.
Entre 1935 e 1950, o diretor foi Edward Johnson, coincidindo o início da sua gestão com a fundação do Metropo­litan Opera Guild, destinado a ser um suporte das atividades do teatro. Devido a certas dificuldades econômicas, Johnson dedicou-se especialmente aos cantores norte-americanos, propiciando a descoberta ou consagração de figuras como Helen Traubel, Risë Stevens, As­trid Varnay, Richard Tucker, Robert Merril, Regina Resnik, Dorothy Kirsten, e, em colaboração com a Metropolitan Opera Auditions of the Air, de Eleanor Steber, Patrice Munsel e Leonard War­ren. Johnson encerrou, com um saldo globalmente positivo, os três lustros que durou o seu mandato ao longo do qual atuaram regentes da craveira de Bruno Walter, Sir Thomas Beecham, Fritz Bus­ch, Georg Széll e Fritz Reiner, e exibiram-se cantores estrangeiros de nomeada, como Bidu Sayão, Licia Alba­nese, Giuseppe di Stefano, Ramón Vi­nay, Zinka Milanov e Jussi Bjoerling.
Em 1950, chegou um novo diretor, Rudolf Bing, que permaneceu à frente do teatro até 1972 e que, nos primeiros anos, deu um novo ar às encenações, contratando diretores e cenógrafos da Broadway e de Hollywood. Durante a sua gestão, Bing alterou a duração das temporadas, elevou consideravelmente os preços, duplicou o número das assi­naturas e conseguiu que, numa tempo­rada, a lotação estivesse praticamente completa. Em 1953, fizeram-se refor­mas no palco e, em 1954, Bing apre­sentou pela primeira vez no Metropoli­tan um artista de raça negra, o contralto Marian Anderson.
Em 1960, faleceu, durante uma repre­sentação de A Força do Destino, o grande barítono norte-americano Leo­nard Warren, uma das figuras mais im­portantes da era Bing. Nessa época, o velho Metropolitan contara com as atuações de cantores como Victoria de los Angeles, Roberta Peters, Leontyne Pri­ce, Renata Tebaldi, Maria Callas, Birgit Nilsson, Joan Sutherland, Elisabeth Schwarzkopf, Renata Scotto, Mirella Freni, Montserrat Caballé, Cesare Siepi, Mario dei Monaco, Franco Corelli, John Vickers, Nicolai Gedda, Carlo Bergonzi, Cornell MacNeil, Nicolai Ghiaurof e Sher­ril Milnes. Em 1966, apesar do sentimen­to geral, o velho Metropolitan chegou ao fim e Bing e os seus colaboradores mu­daram-se para o Lincoin Center.
O novo Metropolitan, obra do arquite­to Wallace K. Harrison, inaugurado em 16 de setembro de 1966, com a ópera de Samuel Barber Anthony and Cleopatra, é um dos mais modernos, espaço­sos, confortáveis e bem decorados do mundo. Ocupa uma superfície quatro vezes superior à do seu antecessor (45 m de profundidade por 70 m de largura). A sala tem capacidade para 3.788 espectadores, com uma visibili­dade perfeita e um palco dotado dos maiores progressos técnicos. A facha­da, com as suas amplas arcadas e grandes janelas, permite ver de fora os amplos vestíbulos e escadarias, com os célebres murais de Marc Chagall. Nos corredores, vestíbulos e salões, o pú­blico pode contemplar obras de arte de Duffy, Maillot ou Lehmbruck, bem como, na primeira cave, o Founder's Hall, um autêntico museu de quadros e bustos dos grandes cantores da história do Metropolitan. O custo total da obra foi de quarenta e seis milhões de dóla­res.
O novo Metropolitan assistiu, entre muitas outras, às atuações de Teresa Berganza, Fiorenza Cossotto, Shirley Verret, Marilyn Horne, Grace Bumbry, Alfredo Kraus, Plácido Domingo, José Carreras, Luciano Pavarotti, Frederica von Stade, Kiri Te Kanawa e Ileana Cotrubas, culminando, assim, essa au­têntica mostra de grandes cantores que constitui a vida artística do Metropolitan. Bing deixou o teatro em 1972, com um milhão de espectadores por ano e um orçamento, por temporada, de cerca de vinte milhões de dólares. Sucedeu-lhe Gõran Gentele, que faleceu antes de poder apresentar a sua primeira tempo­rada. Durante as temporadas 1973­1974 e 1974-1975, Schuyler G. Chapin foi o diretor, cargo que seria abolido a partir do ano seguinte, com a implanta­ção de uma gestão colegial, em que Anthony A. Bliss figura como diretor executivo. A partir da temporada 1977­1978, foi criado o lugar de diretor musi­cal, oferecido a James Levine.
A temporada de ópera do Metropoli­tan dura uma média de quarenta semanas, com duzentas e cinqüenta representações de umas vinte obras diferentes e uma digressão final de seis semanas pelos estados da União.

 

 

 


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