ANNA NETREBKO: “MOZART TE DESPE, TE COBRE DE DEFEITOS”

Desterrou o clichê da soprano com muitos quilos. Pisa no cenário como uma modelo. Começou esfregando o chão de um teatro de São Petesburgo. Hoje essa russa é uma estrela do “bel canto” que afugenta a depressão comprando roupas de luxo de forma compulsiva e se diverte disparando com armas de fogo.

O fenótipo Castafiore não foi bem sucedido com os saltos altos afilados de Anna Netrebko, arquétipo sensual da soprano contemporânea porque sabe costurar, sabe cantar e sabe a tabuada. Quer dizer que a “prima donna” russa representa a pujante estirpe das modelos cantoras — ou das cantoras modelos — precisamente porque suas cordas vocais, temperadas como um violão de Albaicín, têm a mesma elasticidade e voluptuosidade que suas pernas desnudas. Bem o sabem as colegas da velha estirpe, condenadas ao desemprego, recicladas no anonimato dos papéis periféricos e constrangidas a reduzir o estômago com procedimentos quirúrgicos.
Foi assim com Deborah Voigt, deusa incomensurável da acrópoles lírica durante anos e anos... Até que o diretor de casting do Convent Garden londrino, um tal Peter Katona, decidiu excluí-la da Ariadna de Strauß por estritas razões de (sobre)peso. São os tempos da anorexia, dos manequins afilados e das “fashion victims” ainda que Anna Netrebko, heroína de Dior com rosto de porcelana, também sabe jogar tênis. Esta mulher nascida em Krasnodar, 34 anos cumpridos, não protagoniza um fenômeno mediático nem comercial ao costume oportunista da inefável Kournikova, senão que teve o mérito de contrastar-se e de medir-se nos festivais e nos teatros do “grand slam”. Incluída a Ópera de Viena, onde viemos entrevistá-la enquanto que uma van da firma Escada entregava no seu quarto do hotel um pedido de 90 trajes, vestidos e acessórios...

P. Não negue. Você é uma fashion victim. As provas nos rodeiam, nos asfixiam aqui dentro.

R. Amo a moda. Amo comprar. Reconheço-me uma fashion victim. Eu me atreveria dizer que gasto até meu último euro comprando roupas (risos). Não posso evitá-lo.

P. É uma terapia ou uma simples exibição consumista?

R. Sim, creio que é uma terapia, uma maneira de combater o tédio, a solidão e a depressão. Não sempre compro coisas, mas preciso ver vitrines.

P. Se aborrece, está sozinha e se deprime?

R. Como todos os seres humanos.

P. Não são todos os seres humanos sopranos de fama planetária. Conte, conte.

R. Às vezes gostaria escapar, não existir, desaparecer do circuito. Mas não é possível. Minha agenda não me permite. Tantas vezes gostaria cancelar uma função e dizer que basta. No fundo creio que este desejo, nunca satisfeito, é uma maneira de manter a tensão profissional. Você descobre que tem uma responsabilidade e que deve esta à altura de todos os que esperam coisas de você: seu agente, sua casa de discos, seus companheiros, seus admiradores, os espectadores.

P. Você se sente um pouco vampirizada?

R. Sim, especialmente nestas festas sociais de patrocinadores e classes elevadas. Sou incapaz de preservar-me, de conservar a armadura. Muitas vezes noto que me tiram o oxigênio e a energia. Por isso termino exausta.

P. Que outras coisas detesta de sua profissão?

R. Não, nenhuma. Gosto da minha carreira. A questão é que estou aprendendo a desfrutar dela.

Complemento: Anna Netrebko, radiante e simpática, representa a versão contemporânea da Cinderela. Não gosta que se traga à conversa semelhante exemplo, mas o conto em questão serve para recordar que ela mesma ganhava a vida limpando o chão do Teatro Maryinsky de São Petesburgo. Tinha 16 anos, era estudante de canto no conservatório e esperava a sorte de uma oportunidade para responder às expectativas familiares. A oportunidade deu-lhe Valery Gergiev, sumo sacerdote da ópera russa e símbolo da explosão cultural nos tempos de Putin. Depois sobreveio sua estréia em Salzburg da mão de Harnoncourt, o contrato exclusivo com Deutsche Grammophon, seu reconhecimento nos grandes teatros do circuito e a reveladora Traviata que coalhou o verão passado às ordens de Willy Decker. Vargas Llosa escreveu, a propósito do espetáculo, que era impossível superar a atuação de Netrebko em termos de força dramática, de sutileza e de novidade. Verdi pensou nela.

P. Gergiev foi seu padrinho...

R. Foi a chave da minha carreira, a pessoa que acreditou em mim, meu grande padrinho musical. Não teria chegado aqui se não fosse sua ajuda.

P. E como conseqüência você tem contratos até 2011.

R. Sim, mais ou menos. Os teatros trabalham cada vez com mais antecipação. Mas me custa imaginar como serei em cinco anos. Nem sequer sei se estarei viva.

P. Mas esperamos que continue cantado Mozart. Muitas estrelas se separam do mestre uma vez consagradas.

R. Mozart é ideal para a saúde da voz e para o equilíbrio artístico. O problema é que deixa você nu, descobre seus defeitos, exige de você uma total limpeza e pulcritude. Também as óperas de Mozart requerem um trabalho de equipe. Não se pode encarregá-la a essa diva ou àquele divo.

P. Parece dizer diva no sentido pejorativo.

R. Não gosto muito das conotações de diva. Existem cantores que se crêem superiores por se mostrar de um modo distinguido e exclusivo. Inclusive há um público que espera descobrir em você a imagem de uma diva extraterrestre. Já se sabe, um personagem ditatorial, cheio de presunção, acompanhado de um poodle. Eu odeio os cachorros pequenos... Acho que tem que quebrar com certos clichês do passado, abrir os olhos. Por isso gosto as extrapolações contemporâneas das óperas. Mas devem ser feitas com idéias, não só com efeitos. Devem fazer com que o espectador pense, inclusive muitas horas depois do espetáculo. Creio que neste sentido, La Traviata de Willy Decker em Salzburg [estreada em agosto passado] foi modelar. Não sou partidária de uma idéia da ópera empoeirada e previsível.

P. Tampouco foi partidária da montagem que Doris Dörrie fez em Munique de Rigoletto. Todos os protagonistas eram macacos, gorilas, orangotangos  e chipanzés. Menos você e seu pai na ópera, que apareciam vestidos de astronautas.

R. Decidi suspender as atuações porque não me encontrava cômoda. Não só pelo enfoque. Também porque tive muito pouco tempo para ensaiar. Via-me muito pouco integrada na montagem. Essas coisas acontecem, mas continuo pensando que as produções em clave inteligente e contemporânea são a chave para atrair novos públicos.

P. Você utilizou novos métodos. Por exemplo, um videoclipe operístico realizado por Vincent Patterson. Ou seja, a mesma pessoa com quem trabalha Madonna e Britney Spears. Também ele explodiu a sensualidade que você emana.

 R. Aquela foi uma experiência circunstancial, experimental. Foi uma coisa ligeira, brincalhona. Em todo caso, não comparto a idéia de que a ópera está em crise nem que nos encontremos em uma situação apocalíptica. Creio que existem melhores cantores agora que nunca.

P. Tem certeza?

R. Pode ser que não haja um Corelli ou uma Scotto, mas a cifra de bons cantores é superior hoje em dia.

P. Mas nunca tinha acontecido que se descriminasse um cantor por excesso de peso.

R. Desde a platéia não se aprecia a beleza. É essencial cantar bem, ainda que a imagem conta. Sobre tudo na medida em que você se aproxima do personagem. Mas não é verossímil que uma Traviata de 100 quilos emocione e te faça chorar.

P. Monserrat Caballé.

R. Foi uma exceção... Bom, acho que a discriminação é um grave erro. Assistimos todos estupefatos o caso de Deborah Voigt.

P. Finalmente foi à sala de cirurgia para reduzir o estômago.

R. Creio que ela fez sobretudo por razões de saúde. Fico feliz por ela.

P. E não pensa realmente que esta classe de situações demonstrem que a ópera se contagiou do culto ao corpo e da obsessão pela estética?

R. Não nos enganemos. Para ser uma soprano tem que cantar, ter voz. Mas além disso tem que saber atuar. Não basta com o subir ao palco, encostar-se em uma esquina e abrir a boca.

P. Vimos você numa cena com uma inusual carga de erotismo.

R. O erotismo está em alguns papéis e em outros não. Creio que a Traviata é um exemplo afirmativo e que exige a uma cantora uma forte sensualidade. Não é questão de mostrar as pernas, mas de compreender a personagem em todas as suas facetas.

Complemento: a movimentação de trajes e vestidos de “Escada” converte a entrevista em um happening. Anna Netrebko poderia ruborizar-se diante de semelhante espetáculo, mas prefere rir indissimuladamente. “É que você não gosta da moda?”, pergunta com solidariedade compulsiva. Agradecem a cordialidade e a bonomia da cantora russa, quiçá porque ambas virtudes desmontam a velha brincadeira que persegue os figurinos e figurões de ópera enaltecidos. Recordemos: qual é a diferença que existe entre um terrorista e uma prima donna? Ora, com o primeiro se pode negociar...

P. Adora o hip-hop?

R. Sim. Preciso escutar outra música para desafogar-me e trocar de ares. Gosto de Green Day, Black-Eyed Peas. Inclusive Robbie Williams. A ópera e a música clássica requerem mais concentração e compromisso. Não podem pôr-se de fundo como entretenimento nem desinibem você tanto como dançar salsa. Tampouco podem transformar-se em uma obsessão. De fato, procuro fazer coisas distintas para estimular minha vida. Jogo boliche, disparo...

P. Perdão?

R. Disparei com bazuca. Com fogo real. Tenho um amigo militar e me convidou a umas práticas. Foi uma experiência fascinante. Também disparei com um kalashnikov, ainda que o retrocesso da arma deixou-me o rosto desfigurado durante três dias. Ninguém acreditava no motivo. Gosto das armas, mas com fins pacíficos.

P. A propósito de armas, que pensa sobre Vladmir Putin?

R. Que é grande. O queremos muito em Rússia. É capaz, inteligente. Estive com ele algumas vezes e estamos muito agradecidos porque fez muito para a cultura. Desde que ele está no poder, Rússia melhorou muito.

Em www.annanetrebko.com . “La Traviata”, de W. Decker, foi editada em DVD pela Deutsche Grammophon.

SEUS DOIS AMORES

O namorado de Anna Netrebko é Simone Alberghini, um baixo (de tessitura) italiano com o que rara vez coincidem nos teatros do circuito. Sem embargo, a soprano russa encontrou um par “de fato” no cenário que despertou parecidas euforias no planeta operístico. Chama-se Rolando Villazón, tem 34 anos, é mexicano e reúne muitas razões para transformar-se no herdeiro natural de Plácido Domingo. Se parecem na “cor” da voz, no repertório, na personalidade cênica. Inclusive têm em comum o dom de gentes, uma espécie de faculdade comunicativa que lhes permitem projetar o carisma dentro e fora do cenário. “Rolando se transformou num verdadeiro casal”, explica Anna Netrebko. “Os dois estamos vivendo juntos esta experiência de percorrer teatros, gravar discos, fazer novos papéis. E ademais estamos viajando pelo mundo”. A última escala foi o Ópera de Viena, onde a soprano russa e o tenor mexicano triunfaram com uma versão caramelada de “Romeo e Julieta” (Gounod). Quem não os viu podem se consolar agora com o DVD de “La Traviata” (Deutsche Grammophon) que ambos protagonizaram no Festival de Salzburg.

Tirado e traduzido de: http://www.elmundo.es/suplementos/magazine/2006/348/1148665856.html

Autor: Rubén Amón


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